Blog Della

An artistic blog

São Bernardo do Campo, SP, Brasil

Oficina arte como expressão - vida de professora


Oficina Arte como expressão: Instituto Cativar

    Sou voluntária no Instituto Cativar, lá eu leciono uma oficina chamada "Arte como expressão", vocês devem perceber o quanto sou apaixonada por arte contemporânea e o quanto a arte conceitual me atinge. Quando conversei com a Nádia, diretora da ONG, pensamos em algo onde pudêssemos reunir todas as habilidades dos usuários (os chamamos de usuários e não alunos por conta do programa que a ONG faz parte) para criarmos algo pautado no experimento das artes contemporâneas e que tivesse um resultado a ser apresentado e que o processo passasse por temáticas que despertam o grupo.
   Acontece que foram anos dando aula de inglês e quase não praticando minhas habilidades como professora de arte e teatro, quem dirá para aulas de arte contemporânea, mas eu amo dar aulas e amo arte contemporânea, por que não tentar?
   Decidi explorar as questões sobre o que é arte aos poucos, apresentar várias teorias essencialistas e não essencialistas e já tivemos Arte como Imitação e Arte como expressão, porém no meio disso, termos algumas práticas que envolvem o corpo e produção de obras, sejam visuais, coreográficas, plásticas etc.
   Como não conhecia os usuários não sabia de suas realidades, mas sabia de algo que estava acontecendo e não poderia deixar de falar: tivemos o caso de brumadinho, as enchentes, o caso de Suzano e tantos outros acontecimentos. Começamos falando sobre violência e ainda estamos explorando esse tema como gatilho para as criações.
   Em outro momento compartilho com vocês alguns jogos e as criações deles, mas agora, queria focar na estrutura que estou usando na aula, e estou aceitando sugestões.
   Conheço Ana Mae e estou tentando aplicar o pouco que conheço nas aulas com a proposta triangular, Contextualizar, Praticar e Apreciar, porém sinto que ainda de forma bem inocente. Sinto falta de professores que compartilham a estrutura de suas aulas, tenho certeza que aprenderia muito com elas então, conforme vou experimentando, quero compartilhar com vocês.
Oficina: Arte como expressão
 Como sou uma amante das artes cênicas e o principal objetivo das oficinas no Cativar é a criação de vínculo, inicio minhas aulas com uma roda de conversa para saber como eles estão, como foi a semana e sempre acabamos falando sobre algo em específico que eles queiram compartilhar, em seguida faço algum exercício para alongar e aquecer o corpo deles, outro exercício para trabalhar o foco e o estado de jogo (as vezes uso alguns jogos de improviso mas tento tirar a parte da representação pois quero chegar na performance e happening), procuro sempre encaixar um exercício no outro para que não tenha a quebra, eles começam um exercício, fazem três ou quatro seguidos mas vão acumulando as coisas que foram praticando nos exercícios anteriores, afinal, de que adianta eu conseguir o foco e depois quebra-lo para explicar o outro exercício? Temos uma hora apenas e não teria tempo para retomar o foco depois, esses exercícios também vão se voltando a prática do dia, ao objetivo principal, então, pego um exercício que já conheço e vou adaptando para que ele levante as questões que quero trabalhar e vou aos poucos levando os usuários para meu objetivo principal, então, eles produzem a obra que parte desse exercício e realizamos uma roda de conversa para analisarmos essas obras produzidas e outras referências que levo, além de conversarmos sobre os exercícios e as percepções deles. Esse ultimo diálogo é sempre quente, penso previamente em perguntas que os provoquem e que os tirem de uma zona de conforto, procuro sempre finalizar a aula com ar de "essa resposta bbs? procure elas em casa, investigue e venha na próxima semana porque investigaremos mais isso", eles ficam doidos mas sempre rimos bastante dessas discussões.
   A ideia de finalizar a aula com perguntas sem respostas é tira-los da inercia. Quando aceitamos algo como resposta definitiva nos privamos de conhecer mais, de nos envolvermos e de encontrarmos respostas diferentes e isso é algo que acontece muito com a juventude, nada é aprofundado porque a preguiça é maior. Então, quero envolve-los nas perguntas para que a curiosidade seja o motor que os instiga a nunca ficarem com a primeira resposta. Não foi fácil isso, nas primeiras aulas ficavam alguns silêncios, um aceitava a resposta do outro por preguiça e eu também sentia um receio em perguntar, agora é algo natural e eles mesmos compartilharam que em outras oficinas começaram a questionar as "verdades" também.
     "Della, como assim exercício que conduz ao que quero produzir?", por exemplo, estava interessada em trabalhar os movimentos com eles mas também trabalhar as cores e produzir algo visual e abstrato para utilizar esse trabalho em nossas discussões, o tema era violência e em nossa conversa chegamos a conclusão que as pequenas violências são as que nos silenciam diariamente e esse tema talvez fosse algo interessante de explorar. Elas criaram uma lista com as formas que violentam a cidade e as formas que a cidade violentam eles. Em seguida, brincamos de pega-pega, mas esse pega-pega eu o chamo de "pega-pega silenciador", o pegador era aquele que tinha que calar o outro, e quem estava sendo pego tinha que falar sobre essas violências listadas, um não podia deixar o outro falar, ao mesmo tempo que não podia haver silêncio não podia haver barulho, foi intenso! Pedi para que cada uma pensasse nos movimentos que usaram para silenciar o outro e se protegerem, selecionassem quatro movimentos e os experimentassem. Em seguida, juntamos todos os movimentos e criamos uma composição coreográfica ao som da música "Violenta" da Larissa Luz, logo, finalizamos a aula com uma coreografia, já, um produto. Na aula seguinte realizamos outros exercícios e em um deles elas precisariam relembrar essa coreografia, nesse dia conversamos sobre as cores também e as possíveis interpretações ou não delas em uma obra e no nosso dia a dia, por fim, pintamos os pés delas e dançaram em cima do papel craft, elas pensaram no movimento e também pensaram em quais cores achavam que batiam com o tema proposto, deram o nome de "Voz", pensaram em algumas perguntas para provocar quem visse e deixamos expostos na ONG por duas semanas (até que outra oficina precisasse retirar para usar o lugar). Ou seja, os exercícios nos levaram a uma coreografia (que bem trabalhada pode ser um outro produto) que nos levou a uma obra.
Oficina Arte como expressão
   Os exercícios como mencionei, são todos encadeados pois o tempo é curto. Todos os usuários da minha oficina também são usuários da oficina de teatro, então, nas discussões sempre associo uma coisa a outra, sinto que é um subgrupo do teatro. É importante saber quais são os outros interesses deles também para pensar nas propostas, sei que praticamente todos também são usuários da oficina de fotografia e pensando no tema, estamos utilizando a fotografia para isso, em Abril estamos focados em produzir fotografias.
   Usamos essa obra criada para discutirmos sobre as teorias de arte e elas sentem um orgulho enorme do que criaram, sempre quando alguém entrava na aula elas criavam perguntas (da mesma forma que eu faço com elas) para que a pessoa saísse do "não entendo" e mergulhasse nas possibilidades da obra.

Resumindo

Compartilhei sobre as etapas da minha aula, são elas:

  1. Roda de conversa
  2. Aquecer o corpo
  3. Exercícios de foco e estado de jogo
  4. Exercício que os leva ao tema do dia/exercício principal
  5. Produção artística
  6. Novas referências e analise de obras
  7. Roda de conversa sobre o encontro


    Se eu estou no caminho certo? Acredito que sim! Mas ainda há muito o que aprender como educadora e pretendo compartilhar mais e mais com vocês. Compartilhem comigo também.

Comentários

back to top