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São Bernardo do Campo, SP, Brasil

Chega de fiu fiu - o filme


 Eu tinha 15 ou 16 anos, fazia inglês aos sábados de manhã na região da Nova Petrópolis, São Bernardo do Campo. Lembro que na maioria das vezes eu esperava o ônibus sozinha as 6h30/7h e seguia o percurso sozinha entre o ponto de ônibus final até a escola de idiomas. Faziam uns dois sábados que meus pais precisavam usar o carro e passariam pelo centro, eu pegava carona e chegava mais cedo porém economizava no transporte público, o percurso deles não passava pela rua da escola e eu continuava tendo que caminhar entre 10 ou 15 minutos sozinha. Como era cedo demais, nada estava aberto, na maioria das vezes alguns grupos ficavam bebendo até de madrugada na rua e eu os encontrava, no dia não tinha ninguém. Eu usava uma calça jeans e uma blusa rosa com as costas com transparência preta, amava aquela blusa. Enquanto caminhava já na rua em direção ao curso, fui abordada por um carro com três homens, um usava um vestido azul (parecia uma fantasia) e estava com cerveja na mão e o outro com roupa preta, tinha mais um no banco de trás, eles baixaram a janela e me gritaram, ao ouvi-los parei de caminhar e me aproximei, achando que estavam pedindo alguma informação. Eles estavam me perguntando para onde iria. Gelei. Respondi. "Entra que te damos uma carona". Resolvi continuar andando, agradeci e disse que não precisava pois já estava próxima de meu destino, insistiram e eu comecei a ignora-los, caminhando cada vez mais rápido, eles continuaram me acompanhando com o carro, o que estava fantasiado e estava na janela ao meu lado, ameaçava algumas vezes de abrir a porta e meu coração acelerava muito. Todos riam. Até que finalmente resolveram parar e seguiram caminho, tentei segurar o choro enquanto estava sozinha esperando os outros alunos, quando a professora me convidou a falar, não conseguia parar de chorar. Meus pais passaram a me deixar na porta e depois que voltei a pegar ônibus, foram dois anos observando o que tinha no espaço que eu pudesse usar para me defender, lembro que listava mentalmente: tijolo, pedra, correr para casa X e outras ações e objetos.

   Me identifico com o documentário já pelo título. Agradeço a "boa intenção" dos "elogios" que recebo na rua, mas, normalmente não conheço esses homens e nunca nem troquei um bom dia, nem um sorriso para que algum tipo de comunicação pudesse ser iniciada. A roupa que eu uso não é procurando elogios e quando é, deixo bem claro para a pessoa que eu quero que me elogie. Além disso, vocês devem saber o quanto estou interessada em obras que atingem a cidade e em pesquisar sobre como a cidade é pensada e conduzida, de forma que somos convidados a utiliza-la apenas para produção e não para relação e essa também é uma das questões apresentadas no filme. Se você se interessa por essa questão, vai adorar ler sobre as obras da Gabriela Valente Feliz, Coletivo Boa Mistura e Lotes Vagos.

 Antes mesmo de pesquisar sobre o documentário, já achei genial a escolha das mulheres. Eu sou mulher branca e hétero, tenho muitos privilégios e só fui perceber que minha luta não era a mesma luta de todas em grupos de discussões no facebook, em 2015 ou 2016.
"Desde o início tivemos uma preocupação em representar a maior diversidade de identidade de gênero, raça e classe. Foi uma escolha muito cuidadosa. Também queríamos trazer cidades com dinâmicas diferentes. São Paulo, que é essa megalópole e com uma pessoa que se locomove de uma maneira pouco usual, com uma bicicleta. Escolhemos Brasília por ser essa cidade que não é feita para pessoas. Ela é modernista, mas é pensada para carros. E Salvador, que é uma cidade litorânea e com a maior população negra do país" conta Fernanda Frazão (diretora). 
   E é exatamente isso, são mulheres diferentes que enfrentam os mesmos problemas (e outros diferentes também) que narram e expõem através de depoimentos e imagens de câmeras escondidas o que são obrigadas a ouvir diariamente. Uma mulher branca, uma trans, mulher negra e gorda. Rosa Luz, de Brasília (DF); Raquel Carvalho, de Salvador (BA); e Teresa Chaves, de São Paulo (SP).

   "Chega de Fiu fiu" é uma plataforma de denúncia de assédios, como uma tentativa de mapear os lugares mais incômodos e até perigosos para mulheres no Brasil, organizado e realizado pela Olga.
A Olga é uma ONG feminista criada em 2013, com o objetivo de empoderar mulheres por meio da informação. O projeto é um hub de conteúdo que aborda temas importantes para o público feminino de forma acessível.
   Com o crescimento dessa discussão e em parceria com a Brodagem Filmes, criou-se o financiamento coletivo através do Catarse para levantar fundos para a realização do documentário. O projeto atingiu o valor necessário em menos de 24horas, será a população alertando a necessidade de se dialogar sobre o tema?
 Fiquei surpresa quando percebi que ouviria homens durante o documentário. O primeiro comentário me fez revirar os olhos, mas segui, as perguntas os fazem sair com uma postura diferente da que entraram e foi quando eu percebi que revirar os olhos talvez não chegue a nada. O mais interessante é que colocaram um homem para dialogar com eles, se fosse uma mulher, será que deixariam ser questionados? Por isso não acredito que homem deva dar apoio para mulher, compartilhar ótimas publicações apoiando a causa feminista, mas tendo a mesma coragem que tem para conversar com uma mulher sobre o movimento para conversar com homens e esse é um ponto levantado no documentário.

   O documentário conta ainda com comentários da filósofa Djamila Ribeiro (ícone), a ex-secretaria de Política para Mulheres Nilceia Freire e outras mulheres, que fazem recortes e levantam questões muito importantes para o dialogo, bem como o recorte do feminismo negro e a criação do canal de denúncias 180. E a trilha sonora escolhida é tão assertivo quanto, apenas mulheres brasileiras, ouvir Karina Buhr e Larissa Luz me fizeram arrepiar.
   Também pude reviver minha primeira manifestação, a sensação de força que tive foi indescritivel, sai renovada após gritar e gritar na manifestação que teve na Av. Paulista e em todo o Brasil, Todas por Uma, após uma garota ser estuprada por 33 homens. E sabe o que é mais engraçado? É que eu apareço bem no final do documentário com a cena que até hoje recebo mensagens de pessoas falando que me viram em videos, comerciais e agora neste documentário. Me ver lá ainda mexe comigo, ouvir nossas vozes ainda mexe comigo e reviver tudo isso depois de um documentários desses, que pancada.
    E por fim, questionadas, também fui questionada, iria eu para uma delegacia denunciar o assédio? Você iria? Por quê?

   
  Assisti o documentário pelo Mubi, assinei os 7 dias grátis para assistir filmes especificos que não achava em outros lugares e estou pensando seriamente em pagar para permanecer na plataforma, seleção deliciosa de filmes incríveis. 




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